Paula Rego, histórias & segredos

“Paula Rego, histórias & segredos” é um documentário feito por Nick Willing, filho da pintora, e produzido pela Kismet Films para a BBC. Em Portugal, a ante-estreia teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian em Abril de 2017 e contou com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do antigo Presidente Jorge Sampaio, entre outras personalidades da cultura. A estreia nacional teve lugar no cinema da Villa, em Cascais, e precedeu a inauguração de uma exposição com cerca de 80 obras da artista e marido, Victor Willing, que teve lugar na Casa das Histórias Paula Rego com curadoria de Nick Willing e Catarina Alfaro, Coordenadora de Conservação e Programação do museu. A estreia na Alemanha teve lugar a 26 de Outubro pelas 19h, parte da programação do Doku.Arts, e na sequência da exposição que esteve patente de 8 de Agosto a 7 de Outubro no espaço Kunstraum do Camões Berlim. “A primeira vez que peguei numa máquina de filmar foi a máquina do meu avô, o pai da minha mãe”, disse à RTP Nick Willing durante a inauguração. Há muitos anos que o realizador perseguia a ideia de fazer um filme sobre a família e a sua mãe. “A minha mãe sempre disse que não queria fazer documentários. Mas, finalmente, há dois anos atrás, ela aceitou”, concluiu. O PT Post esteve na exibição do filme, que contou com a presença do Sr. Embaixador de Portugal na Alemanha, João Mira Gomes, e onde o realizador explicou mais alguns segredos por trás da narrativa de “Paula Rego, histórias & segredos”. O seu primeiro documentário tem várias passagens de imagens antigas que descobriu no sótão da avó. O realizador procurava umas loiças da Companhia das Índias, que seriam muito valiosas, para a família vender numa altura em que estava com dificuldades financeiras. Acabou por encontrar essas filmagens antigas do avô, que era cineasta amador, uma descoberta que se revelou ainda mais valiosa. "Às vezes o tesouro não é aquele que procuramos”, disse Nick Willing durante a sessão de perguntas e respostas após o documentário. O realizador explicou também que a mãe sempre foi uma pessoa muito tímida e fechada. Pintava compulsivamente ao longo do dia e os filhos pouco a viam. Contou ainda um episódio de infância em Portugal: deveria ter uns cinco anos e queria contar à mãe que tinha caído e esfolado o joelho, mas era impossível falar com ela. Como Paula Rego só se expressava pela pintura, ele fez um desenho a "contar o que lhe tinha acontecido". A pintora nunca abria a porta da adega - o estúdio onde pintava - quando os filhos batiam, mas quando ele enfiou o desenho debaixo da porta ela abriu imediatamente e conversaram um bocadinho. Esse desenho foi mais tarde usado numa das suas colagens, estilo que dominou a sua obra nos anos 60. Em criança entendia bem qual era o propósito das profissões dos pais dos colegas, mas não a dos seus próprios pais. Para que serve um artista? Qual é o propósito da arte? E o pai respondeu-lhe prontamente que um artista é como um explorador que visita terras longínquas e de lá traz imagens de coisas que nunca vimos, mas que imediatamente reconhecemos porque também já lá estivemos. E assim percebeu que afinal a arte era importantíssima. O filme explora os anos vividos em Portugal, na casa da Ericeira, a posterior radicação da família em Inglaterra e a ascensão da carreira da pintora a partir de Londres, a cidade que a levou ao reconhecimento internacional. Nick Willing leva-nos por uma viagem de altos e baixos da vida de Paula Rego, hoje com 84 anos, num ambiente familiar pleno de histórias e segredos que ficamos a conhecer mais em detalhe. Tudo isto com um entusiasmo e orgulho únicos, ou não se tivesse tornado Nick Willing, afinal, num profundo admirador e conhecedor da obra da sua mãe. “Sou um grande admirador da obra da minha mãe e do meu pai, que também era pintor. Eu acho fantástico ter uma mãe assim”, referiu em entrevista à Berlinda/ PT Post.

PT Post: Primeiro uma pergunta sobre si e a língua portuguesa: viveu em Portugal durante a infância e depois esteve maioritariamente em Inglaterra, onde o contacto com a língua portuguesa foi decerto menor. Como manteve a ligação com a língua da sua mãe? Em casa falava-se mais em inglês do que português? Até hoje, como percebemos pelo documentário, a comunicação entre vocês é feita em inglês.

Nick Willing: Eu nasci em Londres, mas fomos para Portugal quando eu ti nha uns 6 meses. A maior parte da minha infância foi passada em Portugal. Nessa época, falava quase sempre em português. Mas era o português de uma criança. Sempre falei com o meu pai em inglês, mas ele também falava português, só que tinha um sotaque horrível. Depois quando eu tinha uns 11/12 anos fui para uma escola interna em Inglaterra e aí tive que aprender mesmo. Não só a língua inglesa, mas também aprender a perceber os ingleses, que são uma raça muito estranha. (risos) Em Inglaterra era raro ouvir alguma palavra de português. Até há 3 ou 4 anos atrás eu falava praticamente só inglês. Depois, o que aconteceu foi que a minha mãe me pediu para ir a Portugal tratar de alguns assuntos relacionados ao museu feito para ela, a Casa das Histórias Paula Rego. Eu sempre achei que a minha irmã Caroline, que falava melhor português do que eu, é que devia ir. E a minha mãe disse: não é isso, é que tu és homem, e em Portugal isso ainda conta. Eu não acreditava que Portugal era assim, mas acabei por aceitar a responsabilidade. Comprei um fato muito bonito, arranjei um advogado português e fui a Lisboa. O que descobri, é que a minha mãe tinha razão. Fiquei espantado. Não é assim em Inglaterra, temos muitos problemas, mas não deste tipo. Depois apercebi-me então que para poder negociar e ter sucesso em Portugal, precisava de falar bem português. E nessa altura o meu português era ainda de uma criança, estava preso numa criança de 12 anos. Portanto tive que aprender a falar e aproveitava todas as oportunidades. Pouco a pouco, comecei não só a lembrar-me do meu português de infância, mas também a aprender um português melhor, de adulto. Depois quando voltei a Inglaterra, comecei a trabalhar com a minha mãe no documentário. Cada vez que estávamos juntos falava com ela em português.

PTP: Ah sim? E porquê?

NW: Por duas razões: quando éramos mais próximos era quando eu era criança. E quando eu era criança, falávamos português. Portanto essa é a memória da nossa relação entre mãe e filho. Era mais íntimo falarmos português. E a segunda razão, é que o português é uma língua mais divertida. Os ingleses pensam que são os grandes comediantes do mundo, mas é mais fácil fazer troça e mais brincadeiras em português. Também é verdade que os portugueses podem ser muito melancólicos. (risos) A experiência que eu tenho com amigos e família em Portugal e Inglaterra, é que o português é uma língua muito mais divertida, com muito mais luz do que escuridão. E portanto agora falo melhor, mas é por conta de eu ter querido aprender a falar português. Agora vou a Portugal com mais frequência e ajuda-me muito a falar português. Eu gosto mais de falar português do que inglês. Português é uma língua muito mais gira.

PTP: O filme explora mais o reconhecimento que Paula Rego conseguiu obter em Inglaterra. Mais haveria a dizer sobre o seu percurso em Portugal, por exemplo as exposições na Gulbenkian ou mesmo a criação do edifício dedicado ao seu trabalho há 10 anos, a Casa das Histórias de Paula Rego em Cascais. Isso deve-se ao facto de se encontrar a viver em Inglaterra e não em Portugal? Ou ao facto de o documentário ser uma produção primeiramente para o mercado britânico?

NW: O filme foi feito para a BBC. Como disse antes, os ingleses não falam nem uma palavra de português, portanto não faria sentido ser a língua do filme. Mas essa não é a única razão. A língua internacional do cinema é o inglês. Portugal, como talvez saiba, é um país onde é difícil arranjar orçamento para fazer um filme. E temos que pensar a Paula como uma artista inglesa. É uma coisa um bocadinho complexa, mas vou tentar explicar da maneira mais simples possível. O sucesso da Paula Rego é feito em Inglaterra. Se ela tivesse ficado em Portugal a vida toda, é possível que tivesse tido sucesso em Portugal, mas não sucesso mundial - estamos a falar de uma artista que é exposta não só em Inglaterra e Portugal, mas na América, França, Espanha, China, Índia… no mundo todo. Foi uma carreira criada em Inglaterra, em Londres. O mundo da arte internacional vive em Londres e Nova Iorque. Em Lisboa não. A Paula Rego viveu quase a vida toda em Londres, o estúdio é em Londres, a maior parte das obras foram quase todas feitas em Londres - desde 1952 até agora. O que é diferente com as obras da Paula Rego é que as histórias - o conto que está ali metido - é quase tudo português (risos). É um coração português com uma mente inglesa. Ela fala as duas línguas igualmente bem. Os ingleses pensam que ela é inglesa. Vive em Inglaterra desde 1951 e tem passaporte inglês, só.

PTP: Não fez passaporte português?

NW: Quando ela se casou, em 1959, no tempo do Salazar, em Portugal só se podia ter um passaporte - e escolheu o passaporte inglês, que a ajudou muito. Nos anos 60, quando ela começa a criticar o governo do Salazar, a PIDE e o governo português não tocaram nela. Ela tinha muitos amigos, artistas e poetas, que foram logo para interrogação. E ela escapou a isso. E a grande razão pela qual ela escapou a isso foi por ter apenas passaporte inglês. Era inglesa, e claro, os portugueses não queriam ofender os ingleses...

PTP: O filme esteve no Festival do Rio no ano passado, como foi recebido?

NW: Teve um impacto bastante grande, porque o filme fala sobre a luta contra o fascismo e o direito ao aborto, a censura. Foi há dois anos, mesmo quando o Bolsonaro estava quase a ser eleito presidente. Na plateia houve pessoas a chorar. O público ficou bastante emocionado ao ver o filme e estas lutas que aconteceram em Portugal há bastante tempo atrás e que pareciam estar a chegar ao Brasil.

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PTP: Por último, quais são alguns dos trabalhos preferidos de Paula Rego e porquê?

NW: Eu gosto muito da obra “The Pillowman”, um tríptico de 2004. É uma obra sensacional. Incrível. Eu olho sempre para essa obra com uma admiração enorme. É cheia de histórias mas também com uma atmosfera muito estranha. É inspirado numa obra de teatro bastante famosa na Inglaterra. Mas há muitas outras, “O Anjo” (1998) também é uma obra que eu adoro “The Company Women” (1997), a história do Padre Amaro. E também gosto muito das obras dos anos 60, que são colagens muito diferentes das obras mais recentes, mas que também têm um poder e uma força muito estranha.

Rita Guerreiro

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