O amor é ouro e o tempo um ladrão

Debaixo do grande arco do tempo, passeio de mão dada com o meu avô que aponta para o velho teatro de Faro ao fundo da rua e me pergunta se sei o que significam as duas palavras escritas no topo da fachada: MONET OBLECTANDO. Passado meio século, na pequena cidade alemã Limburg an der Lahn, aponto a fachada duma moradia às minhas filhas e pergunto-lhes se sabem o significado das palavras HORA RUIT CARPE DIEM. No caso do Teatro Lethes, na capital algarvia, a tradução literal é “Alerta, entretendo” (a documentação da cidade de Faro traduz, tal como o meu avô o fazia, com alguma liberdade gramatical e semântica “Instruir, divertindo”). As palavras na clássica moradia na Alemanha, onde passeava no início do ano com as minhas filhas, traduzem-se por qualquer coisa como “A hora foge, goza o dia”. Assim começa um novo ano e parece que há cinquenta anos foi ontem. Inventámos a divisão do tempo em gavetas e este mês de Janeiro estreamos os anos 20. As décadas - esqueçamos por um instante a contagem purista segunda a qual “esta” só começa para o ano, porque nunca houve um ano zero etc. - são as unidades de conta maiores da nossa existência. Com alguma sorte ou à custa da dieta mediterrânica, o nosso armário terá umas oito, nove ou dez gavetas antes de ser selado e enterrado. Entretanto resumimos a vida mais ou menos assim, conforme a idade de cada um: nos anos 60 estávamos todos em frente à televisão, era a preto-e-branco, e o ‘homem’ foi à lua, (os mais velhos dirão que estavam numa cave ou sótão a ouvir música ou a fumar o primeiro charro); nos anos 70 foi quando houve aquela revolução dos cravos (alguns dos mais novos pensarão que foi quando Portugal se tornou independente de Espanha ou quando deixou de haver reis), nos anos 80 acabámos o liceu e tínhamos medo de uma guerra nuclear. Nos 90 começámos a trabalhar, nos anos zero nasceram as crianças, nos anos dez acabámos de pagar a casa. Um dia, quem ainda por cá andar, lembrar-se-á ainda: não foi nos anos 20 que isto e aquilo? Não foi quando os carros passaram todos a ser eléctricos? Não foi nos loucos anos 20 que aquela apresentadora de televisão loira dum programa da manhã se tornou presidente de Portugal, como é que ela se chamava? Não foi quando aquele americano maluco cor de laranja com um penteado ridículo se engasgou a comer um hambúrguer e morreu? Não foi nos anos 20 que havia uma moeda chamada euro e começámos a ter dores reumáticas?

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Antes que se esvaziem as gavetas das nossas memórias, se fechem as portas do armário, se baixe pela última vez a tampa, há mãos a segurar, dos avós, dos filhos, dos netos, da pessoa ao nosso lado que amamos. Porque até as línguas e as palavras que nelas foram ditas morrem e os Impérios onde eram faladas desaparecem. Nada como o primeiro mês do ano para nos tornarmos pessoas melhores. Ou pelo menos apoiarmos o ginásio local na esperança de nos tornarmos pessoas mais magras.

Miguel Szymanski

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