Entrevista a António Pinhão Botelho

PT Post: Antes de mais, parabéns pela estreia de “Ruth” na Alemanha. Este é um filme tanto sobre Eusébio e a rivalidade entre Sporting e Benfica quanto sobre o Portugal da ditadura. É interessante como os temas se vão intercalando durante a narrativa. Futebol e política, dois temas "quentes" num só filme, foi um desafio?

António Pinhão Botelho: Isso de facto é uma mais valia do guião: o facto do enredo principal e do nosso protagonista serem relegados para segundo plano por causa do clima político nos dois continentes e da rivalidade (muito actual) entre os dois clubes de Lisboa. Tudo isso numa espécie de história de espiões à volta da figura futebolística mais mediática do século XX do nosso país. O desafio do filme não foram os temas, mas sim o retratar de uma época muito específica na história de Portugal. As nossas cenas exteriores em Lisboa foram literalmente filmadas no meio de turistas. A cidade está cheia de anacronismos, daí ter filmado muito para as fachadas dos prédios, para o chão e para o céu de modo a evitar tudo o que não era de época.

PTP: Disseste em entrevista à Time Out que o estalar da guerra em Angola, o assalto ao Santa Maria ou as pressões da ONU e da administração Kennedy sobre Portugal passam para segundo plano no filme, porque o que importa é onde vai jogar o Eusébio afinal. E disseste que actualmente se passa o mesmo, isto é, que em Portugal ainda se discute mais futebol do que outros temas pulsantes da actualidade. Achas que os portugueses continuam, na sua essência, iguais ao que eram há sessenta anos?

APB: Iguais não. Portugal já não é uma ditadura. Há sim, neste momento, um monopólio futebolístico do tempo de antena nos canais de televisão em Portugal, algo que poderá ser uma herança desse tempo. Todas as cadeias televisivas têm programas de análise desportiva todos os dias da semana que consomem o prime time da televisão portuguesa. As pessoas são capazes de discutir os lances polémicos do dérbi duran te 7 dias, mas incapazes de discutir questões sociais, políticas ou ambientais.

PTP: O futebol é a nossa maneira de meter a cabeça na areia, como a avestruz?

APB: Durante a ditadura entendia-se o futebol existir como um escape. Nos dias de hoje é grave e é uma espécie de cegueira opcional. Eu adoro futebol, mas só durante 90 minutos.

PTP: Quando o filme passou em Portugal, quais foram as reacções dos adeptos do Sporting e do Benfica?

APB: Tendo em conta que o filme estreou no fim-de-semana em que o FC Porto se sagrou campeão e poucos dias depois houve o escândalo da Academia do Sporting (os ataques em Alcochete) os adeptos dos clubes lisboetas estavam com neuras. Mas o filme retrata uma história verídica em que, quer o Benfica, quer o Sporting, ficam um pouco mal vistos durante toda a operação Ruth. No entanto, é um filme escrito por uma benfiquista, realizado por um benfiquista sobre o maior benfiquista de todos os tempos e sobre uma situação em que o Benfica leva a melhor. É natural criar uma "pequena" comichão em alguns adeptos. Mas, apesar do clubismo, o filme foi bem recebido.

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PTP: Por último, que projectos tens em mãos? Vêm aí novos filmes?

APB: Com sorte - porque, apesar de tudo, fazer cinema em Portugal requer alguma - terei a oportunidade de adaptar o livro "O que Diz Molero" de Dinis Machado. É um livro que mudou, de certa forma, a minha vida. Outro projecto que adoraria adaptar, mas teria que ter um orçamento de um grande filme europeu, seria o livro do Robert Wilson "Último Acto em Lisboa" (A Small Death in Lisbon). É sobre um alemão, Klaus Felsen, que em 1941, devido à sua insolência para com o governo nazi de Hitler, é excomungado para Portugal para supervisionar a minagem de volfrâmio. Ao mesmo tempo, o livro relata uma morte de uma adolescente nos anos 90 em Lisboa e, à medida que a investigação policial avança, descobrem-se ligações às consequências das acções de Felsen – desde a metade dos anos 40 até ao 25 de Abril de 1974.

Rita Guerreiro / Helena Araújo

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